Publicado por: ferdesigner | 30/09/2016

Cigarras, borboletas e andorinhas

Por Marina Silva

Há dez anos, quando dirigia o Ministério do Meio Ambiente, tomei conhecimento de estudos realizados pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia que alertavam sobre o aumento do risco de combustão da floresta amazônica, provocado pela elevação da temperatura média na região e redução das chuvas, como decorrência do aquecimento global, do desmatamento e das queimadas nas zonas de expansão agropecuária.

Em 2007, o relatório do IPCC indicava que a Amazônia poderia virar uma espécie de savana até o fim do século, uma floresta mais seca, mais baixa, menos diversa e mais rarefeita. Embora estudos posteriores tenham mostrado que esse risco é menor do que se supunha e o próprio IPCC tenha reconhecido em seu relatório de 2014, continuou a afirmar que espera uma significativa diminuição das chuvas e aumento dos períodos de secas mais severas no leste da Amazônia.

Foi-se a polêmica, mas ficaram os alertas quanto aos efeitos. Infelizmente, em algumas regiões da Amazônia essas previsões têm se confirmado, como mostram os diversos eventos extremos ocorridos na última década. As duas piores secas na Amazônia ocorreram em 2005 e 2010, sendo que a de 2010 reduziu as chuvas numa área de 3 milhões de km² de floresta – bem mais do que o 1,9 milhão de km² afetado em 2005. As secas causam a morte de milhões de árvores e animais, além de enormes prejuízos para as comunidades ribeirinhas, para a economia e o abastecimento de água nas cidades. Outro exemplo dramático veio da porção ocidental da Amazônia. Em 2005, o Acre viveu sua pior seca da história e viu arder em brasa cerca de 400 mil hectares de florestas. Atualmente, o rio Acre tem a maior seca já registrada, um ano e meio depois da maior enchente.

Povos do Xingu estão sitiados em suas próprias terras pelo modelo de produção que se incentiva na Amazônia

No plano global, o ano de 2015 foi considerado o mais quente da história e o aquecimento continua: 2016 pode bater esse recorde. É inegável que o aquecimento do planeta está se acelerando e as consequências indicadas pelos cientistas décadas antes já começam a se tornar fato corrente.

Assisti ao comovente filme “Para onde foram as andorinhas?”, produzido pelos institutos Socioambiental e Catitu. O filme documenta com paradoxal delicadeza a tragédia social e ecológica dos povos indígenas no Parque do Xingu, mostrando o aumento da temperatura e as mudanças no regime das chuvas e na biodiversidade provocadas pelo desmatamento, queimadas e uso de agrotóxicos nas fazendas que circundam o parque.

Essa é uma tragédia silenciosa, que se desenrola alheia à percepção da sociedade, dos governos e da imprensa. Uma crise sistêmica cujos indicadores não são divulgados nem reconhecidos. É diferente quando a bolsa de valores cai, o dólar sobe ou aumentam as taxas de juros nos Estados Unidos. Aí soam alarmados os atabaques tecnológicos das aldeias urbanas. O mundo “civilizado” entra em alerta máximo.

No Xingu, uma parcela dos brasileiros inquieta-se com indicadores que sinalizam perigo para suas vidas, seus investimentos, seus patrimônios e a destruição de todo seu modo de vida. A inquietação agrava-se no silêncio: esses indicadores só serão medidos, vistos e sentidos pelas comunidades do Xingu? Esses grupos terão cada vez menos aliados nos governos, nos parlamentos e na imprensa? Poderão eles acionar estruturas econômicas e instituições fortes em sua defesa?

Em vários povos, a crise se instala e se aprofunda debilitando-os até que venha a aniquilação lenta e certa. No Xingu, os índios perguntam para onde foram as andorinhas. Amanhã poderemos estar nos perguntando para onde foram os povos Aweti, Kalapalo, Kamaiurá, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Trumai, Wauja e Yawalapiti que viviam no Xingu. Além dessa, teremos muitas outras perguntas de natureza ética. Perguntas incômodas, mas fundamentais.

Esses povos estão sitiados em suas próprias terras, mas não mais por grileiros, garimpeiros ou madeireiros. Estão sitiados pelo modelo de produção econômica que nosso país adota e incentiva na Amazônia e nos demais biomas. Para os que defendem esse modelo é irrelevante o desaparecimento das borboletas, cigarras e andorinhas que indicavam a chegada das chuvas e o tempo de plantar. E para todos nós fica a pergunta: será irrelevante a denúncia de que estão matando o Xingu e seus povos, junto com as borboletas, cigarras, andorinhas, florestas e rios? Será irrelevante saber que o cheiro dos agrotóxicos das grandes lavouras se sente no interior da mata, que todos os seus habitantes estão sendo envenenados?

Precisamos ver tudo como uma espécie de aviso, igual à advertência que os cientistas fazem à nossa civilização urbana e industrial. Os cenários científicos da ONU mostram que o semiárido nordestino vai ficar mais seco e quente, que as principais culturas agrícolas do Brasil sofrerão perdas bilionárias, que as cidades litorâneas terão mais inundações e deslizamentos de terra. E os índios nos avisam que seu drama de hoje anuncia nossa tragédia de amanhã.

Há pouco mais de uma semana o Senado ratificou o Acordo de Paris, onde o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões de gases estufa em 37% até 2025 e 43% até 2030. Essa foi uma excelente notícia em meio à crise politica e econômica. Mas para que seja levada a sério, governo e sociedade devem tomar decisões urgentes. Primeiro, que o governo tem o dever de interromper os movimentos liderados por sua própria base de apoio no Congresso, que quer impor retrocessos socioambientais, como, por exemplo, a fragilização da legislação ambiental e o fim dos direitos constitucionais de indígenas, quilombolas e outras populações tradicionais.

Além disso, precisamos do fortalecimento técnico, financeiro e político das instituições responsáveis pela política socioambiental do país, como os ministérios do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, Ibama, Funai, ANA e Instituto Chico Mendes e não da sua entrega a interesses contrários a suas funções. Essas instituições têm experiência e competência para firmar parcerias com a sociedade e buscar respostas para as perguntas de índios e cientistas.

Maior do que a crise política e econômica é a silenciosa e trágica crise da ecologia. Sem ecologia não há economia nem sociedade que se sustente. Temos que olhar os indicadores econômicos e sociais, é certo. Mas temos que ver bem de perto, e muito além dos juros, do dólar e da Bolsa, os indicadores de desmatamento e emissões de gases estufa. Se possível, considerando o que está sendo interpretado pelos índios através das cigarras, borboletas e andorinhas.

Marina Silva, ex-senadora e fundadora da Rede Sustentabilidade, foi ministra do Meio Ambiente e candidata à Presidência da República em 2010 e em 2014.

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