Publicado por: ferdesigner | 19/03/2015

Artigo: Por uma natureza restaurada

‘Na história do mundo novo, 450 anos é tempo’

POR PEDRO DA CUNHA E MENEZES (EX-DIRETOR DO PARQUE NACIONAL DA FLORESTA DA TIJUCA)


A Floresta da Tijuca, com a Pedra da Gávea ao fundo: a exuberante natureza carioca é unanimidade entre os visitantes – Márcia Foletto / Agência O Globo

São quatro séculos e meio construindo uma cultura e uma identidade próprias. Nossa cidade, desde seu descobrimento, em 1502, já ganhou o nome de natureza: Rio. Também é São Sebastião de Janeiro. Mas o que ficou mesmo é o Rio, que afinal era mais que um grande córrego. Era uma exuberante enseada, descrita ainda no século XVI por Fernão Cardim como “coisa formosíssima, cuja baía parecia pintada pelo supremo criador e arquiteto do mundo”. Os séculos se sucederam, e o Rio continua encantando seus visitantes. Em 1832, do alto do Corcovado, Charles Darwin escreveu: “Nessa elevação, a paisagem enfeita-se com tintas tão brilhantes, as formas e as cores sobrepujam tanto em grandeza tudo o que o europeu viu em suas terras, que lhe faltam expressões para descrever o que sente”. Mais tarde, em plena Segunda Guerra Mundial, Stefan Zweig concordaria: “Continuamente gozamos aqui as delícias de contemplar a natureza formosa… Esta cidade é sempre encantadora, quanto mais tempo a conhecemos, tanto mais gostamos dela. Mas, quanto mais tempo a conhecemos, tanto menos podemos descrevê-la”.

A unanimidade dos visitantes em elogiar a exuberante natureza carioca valeu ao Rio o título de Cidade Maravilhosa, imortalizado em 1931 na marchinha de André Filho, transformada em hino oficial do Rio de Janeiro por Carlos Lacerda em 1961. Todo o resto, a música do samba e do chorinho, o futebol do Fla x Flu e do Vasco x Botafogo, a culinária da feijoada e da caipirinha, os grandes eventos carnavalescos e do Rock in Rio, encontra rivais em outras metrópoles no Brasil e no mundo. Nossa natureza, espetacular e sedutora, entretanto, é única e nos confere um encanto todo especial. O que seria do Rio de Janeiro sem a sentinela do Pão de Açúcar, a moldura verdejante da Floresta da Tijuca e os encantos azuis da Baía de Guanabara? Afinal, o que valeu ao Rio o título de Patrimônio Mundial da Humanidade foi justamente essa paisagem.

Ao longo de nossos 450 anos, tivemos uma relação dicotômica com ela. Ora a destruímos e renegamos, ora a reinventamos em esforços impressionantes. Nos primeiros séculos de vida da cidade, os cariocas foram implacáveis com sua natureza. O Rio arrasou morros, aterrou belas lagoas, canalizou mangues, retificou o litoral da Baía de Guanabara para construir seu Porto e, num ato de ganância celerada, desmatou as florestas de suas encostas, plantando café nas serras da Carioca e da Tijuca. Mais tarde, já no século XX, houve outras ações de automutilação. Favelas subiram desordenadamente as fraldas de nossas montanhas, e nossa incomparável Guanabara virou destino do despejo intermitente de toneladas de esgoto in natura, transformando-a em um dos corpos d’água mais repugnantes do planeta.

Ao completar quatro séculos e meio de vida, precisamos compreender os erros e acertos de nosso passado para projetarmos um futuro melhor e sustentável. O século XXI aponta para uma nova realidade mundial, em que não só os países, mas também as grandes cidades competirão entre si no cenário internacional. O Rio largou na frente, tendo vencido as corridas para sediar a final de uma Copa do Mundo e uma edição dos Jogos Olímpicos. Certamente haverá um legado em termos de obras deixado por um prefeito que vestiu a capa de Pereira Passos e está comandando uma profunda reforma urbanística no Rio de Janeiro.

Há que aplaudir, mas ainda falta. Do alto da maturidade de seus 450 verões, a Guanabara precisa se preparar para um futuro em que o clima e a natureza serão protagonistas. O aquecimento global, a crise hídrica, os novos ciclones não são meros episódios. Vieram para ficar. A Cidade Maravilhosa, que foi sede da Rio-92 e da Rio+20, as duas principais conferências sobre meio ambiente da história planetária, poderia ser referência mundial na área ambiental, que hoje atrai olhares do mundo inteiro.

Ao replantar a Floresta da Tijuca em 1862, o major Archer realizou um feito heroico. Em outras praias, seria tratado como herói, teria sua efígie cunhada em moedas, emprestaria seu nome a universidades, teria panteão no Centro da cidade. Infelizmente, no Rio de Janeiro poucos sabem quem foi ele. Analogamente, passam despercebidos da mídia e da população outros projetos de ponta, como a implementação dos Corredores Verdes na Zona Oeste, o Mutirão Reflorestamento, que já plantou mais de um milhão de mudas em 20 anos e mudou o panorama das encostas da cidade, e a Trilha Transcarioca, que pretende ligar com corredores ecológicos as matas cariocas desde o Pão de Açúcar até Guaratiba, gerando emprego e renda.

São todos projetos revolucionários, tocados pelo terceiro escalão do governo, com ajuda de ONGs ambientais e milhares de braços voluntários. Não contam com apoio dos líderes políticos nem orçamento. No contexto dos grandes planos governamentais, são projetos invisíveis. Mesmo assim, avançam e começam a aparecer. Reúnem adeptos e entusiastas. É um movimento de baixo para cima, que, cada vez mais forte, se organiza para tornar a cidade mais limpa, mais verde, mais sustentável e mais bonita. Pretende dar uma nova governança aos parques do Rio, juntando todas as suas unidades de conservação sob uma só direção, com orçamento único e equipe unificada. Quer que a despoluição de nossos rios e da Baía de Guanabara seja prioridade de governo. É um movimento quase subterrâneo de cidadãos cariocas, orgulhosos dos 450 anos de sua cidade, mas que almejam um quinto centenário com uma natureza restaurada, que torne o Rio de Janeiro uma referência mundial em meio ambiente. Como movimento espontâneo e policêntrico, não tem nome. Bem poderia se chamar Movimento Major Archer.

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