Publicado por: ferdesigner | 29/10/2014

Existe alternativa para petróleo, não para água

Nexo entre energia, clima e recursos hídricos tem de entrar na mira dos governos e das pessoas comuns

MARCELO LEITEENVIADO ESPECIAL A ESTOCOLMO

Peter Gleick criou e dirige o Pacific Institute, uma ONG da Califórnia que há 27 anos vem tratando dos problemas da água e do clima. O instituto sempre deu destaque para o nexo entre os temas, desde quando ainda nem se falava muito de mudança do clima.

A tese de doutorado de Gleick, em 1986, já tratava de aquecimento global e água. Ele também fez o primeiro estudo sobre os impactos do clima nos recursos hídricos do Oeste dos Estados Unidos, com foco nos riscos para a queda de neve e o degelo.

“Muitas de nossas preocupações com recursos naturais não serão com petróleo, mas com água. Há substitutos para o petróleo, mas não há substitutos para a água”, alerta Gleick nesta entrevista feita durante a Semana Mundial da Água, há duas semanas em Estocolmo.

Folha – Ouve-se muito aqui em Estocolmo sobre o nexo entre água, energia e produção de alimentos. Mas a água parece ser a limitação principal, e também a mais vulnerável à mudança do clima. O que pode e deve ser feito?

Peter Gleick – O problema da água tem muitas facetas. Às vezes há muita água, às vezes, água de menos, às vezes no lugar errado, com frequência no momento errado, ou com a qualidade errada.

Nós tomamos a água como algo dado, mas o mundo está se movendo numa direção em que isso não será mais possível. Não há mais como administrar a água de maneira sustentável, em termos mundiais, e isso leva a crises, a escassez, a custos.

Alguns dos piores impactos da mudança do clima serão sobre os recursos hídricos, porque o ciclo hidrológico é o ciclo climático –evaporação, formação de nuvens, precipitação.

Mas uma das previsões sobre o aquecimento global é que a precipitação vai aumentar.

Um planeta mais quente será um planeta mais úmido. Haverá mais precipitação, porque [a maior quantidade de energia na atmosfera] acelerará e ampliará o ciclo hidrológico: mais evaporação, mais precipitação.

Mas os seres humanos não estão nem aí para a média global. Nós queremos saber o que vai acontecer onde vivemos. Seria bom se lugares úmidos se tornassem um pouco mais secos e lugares secos se tornassem mais úmidos, mas os modelos climáticos nos indicam o oposto.

Na média, os lugares secos se tornarão mais secos, e os úmidos, mais úmidos. E a maioria deles verá mais extremos, tempestades e secas.

Além disso, a infraestrutura não foi projetada para isso.

Sim, projetamos nossa infraestrutura no século 20 na presunção de que o clima seria estável. Construímos estruturas para reservar água em anos úmidos para usar em anos mais secos, ou para nos proteger de enchentes. Mas agora o clima está mudando e essa infraestrutura ficará vulnerável.

Como o potencial de geração remanescente do Brasil fica na Amazônia, uma área plana, seus reservatórios costumam ser imensos. De uns anos para cá se optou por usinas a fio d’água (com reservatório pequeno), mas já se debate a volta ao modelo antigo, com grandes represas. Seria uma tendência mundial?

Grandes represas são muito controversas. Podem trazer grandes benefícios e impor custos terríveis. Construímos muitas grandes represas no século 20, certamente na América do Norte e na Europa, e esses reservatórios trouxeram muitos benefícios em termos de eletricidade, controle de enchentes, recreação, mas também trouxeram uma tremenda devastação ecológica.

Vivemos num mundo em que ainda necessitamos de grandes obras de infraestrutura, mas precisamos construí-la com padrões diferentes. Precisamos pensar se não há outras formas de obter os benefícios oferecidos, de melhorar o suprimento de água e o controle de enchentes.

O sr. já disse que o esgotamento da água é mais preocupante que o fim do petróleo, não?

O esgotamento do petróleo é um problema real. Veremos um pico e depois um declínio da produção. Acho que isso é uma coisa boa, pois quanto mais cedo nos desvencilharmos dos combustíveis fósseis, melhor combateremos a mudança do clima.

Podemos produzir energia com ventos, hidrelétricas, usinas geotérmicas e solares. Mas para água não temos alternativa, e temos de aprender a administrá-la de forma mais sustentável.

Mas ela não é renovável?

Até para recursos renováveis há limites. Não se pode obter mais água do que a natureza fornece para um rio.

É um problema, por exemplo, para o rio Colorado, que é partilhado entre sete Estados nos EUA e o México. Nós o usamos todo, e bem que queremos mais água no Colorado, mas não dá para ter.

Manejar recursos naturais, mesmo que renováveis, exige mais inteligência do que temos empregado até aqui.

Algumas fontes de água não são renováveis, como os aquíferos. Se você extrair mais água das reservas do que a natureza é capaz de repor, é como o petróleo, pode esgotá-la até o ponto em que se torne caro demais obtê-la.

São Paulo vive a pior crise de água em 80 anos. Pode-se exigir de qualquer governo que esteja preparado para uma crise sem precedentes?

Bem, os governos precisam se preparar para eventos extremos, como secas e enchentes, pois a mudança do clima pode tornar esses extremos ainda piores.

Na medida em que as secas se tornem piores, as respostas terão de ser mais fortes. Não sei o que o governo local [de São Paulo] fez para se preparar. Não importa o que fizermos para nos preparar, às vezes a natureza nos confronta com um problema pior do que prevemos, e aí nossa resposta tem de ser mais agressiva e mais abrangente.

Debate-se em São Paulo a necessidade de um racionamento, mas ninguém acha que o governo estadual o decretará num ano de eleição.

Temos uma crise muito séria na Califórnia, mas um racionamento nunca foi proposto. Lá estamos eliminando o paisagismo, grandes gramados, e pedindo reduções voluntárias de 10%, 20%, no consumo de água.

E multas?

Cabe a cada municipalidade decidir se vai multar quem usa em excesso. Se a seca piorar, haverá um debate sério sobre desviar água da agricultura, ao menos para as necessidades básicas. É difícil cortar a água das pessoas.

E complicado, pois a rede pode ser danificada com a mudança de pressão.

Acho que um racionamento seria a última das opções. A primeira coisa a fazer é cortar os vazamentos e as perdas, e isso requer investimento e infraestrutura.

O que é mais importante para resolver o problema da água: buscar mais fontes, construir infraestrutura ou aumentar a eficiência do sistema?

A maneira antiga de pensar a questão sempre foi aumentar a oferta, conforme cresce a população. Quando se alcançam limites da água disponível, torna-se mais importante olhar para a maneira de usar a água, de modo a garantir que seu manejo seja tão eficiente quanto possível –nos banheiros, nas máquinas de lavar, na indústria, na agricultura.

Além disso, há outras fontes em que precisamos começar a pensar. Coletamos um bocado de águas servidas em nossas cidades e as tratamos para que alcancem um padrão de qualidade razoável. Por que não usá-las para outros fins? Até para beber.

Todo mundo sabe o preço de um litro de gasolina, mas ninguém sabe o de um litro de água. Quando isso vai mudar?

Quando a água se tornar escassa e passarmos a tarifá-la apropriadamente. Preços são uma ferramenta valiosa para educar as pessoas sobre o valor da água.

Água continua a ser o serviço mais barato que pagamos. Eu pago muito pela minha água, mas é menos do que pago por eletricidade, celular, TV a cabo, internet, e provavelmente é a coisa mais importante que uso.

Se você acordar de manhã, abrir a torneira e não sair nada dela, aí você entenderá o valor da água.

O jornalista MARCELO LEITE viajou à Suécia a convite do Instituto Internacional da Água de Estocolmo (Siwi) para receber o prêmio Wash Media, dado à reportagem “A Batalha de Belo Monte” (folha.com/belomonte)

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