Publicado por: ferdesigner | 29/10/2014

Amazônia queima sem notícia

Inpe atrasa vários meses a divulgação da informação sobre desmatamento e só o faz por imposição legal

A divulgação em meio ao tiroteio eleitoral escondeu o resultado do monitoramento da destruição da floresta amazônica. Entre agosto de 2012 e julho de 2013, o desmatamento foi 29% maior do que nos 12 meses anteriores (2011-12), segundo o programa Prodes, que o Inpe devia ter divulgado em maio mas só revelou na última quarta, com quatro meses de atraso.

Outro projeto de acompanhamento da degradação da Amazônia, chamado Deter, mostra que em junho e julho de 2014 os alertas de desmatamento foram 9% maiores que no mesmo período de 2013. Os resultados combinados revelam que a degradação cresce há dois anos, revertendo a redução ocorrida entre 2008 e 2012. É notícia grave, mas a imprensa, distraída com a eleição, não viu.

O Inpe tem dois programas de avaliação da destruição de nossa maior floresta. O mais antigo, Prodes, é feito desde 1988, com imagens produzidas de agosto a julho de cada ano. Os resultados são divulgados em maio do ano seguinte, quando a destruição detectada já é irreversível. Por isso, em 2004, foi criado o Deter, menos preciso (ele detecta sinais de calor) mas com resultados mensais, serve para que os órgãos públicos possam agir enquanto um ataque à floresta está em curso.

Os dois sistemas fornecem à sociedade a informação para reagir contra a redução da floresta, que influencia o clima no resto do país e no continente. O ressecamento da Amazônia é determinante para a falta de chuvas em São Paulo, por exemplo, como explicou o cientista Philip Fearnside à Folha, em março (leia em http://folha.com/no1431548).

Este ano, os resultados dos dois programas foram divulgados com atrasos inéditos, com implicação eleitoral. O Prodes só saiu no dia 10 deste mês porque a ONG Instituto Socioambiental interpelou o Inpe com base na Lei de Acesso a Informação. Já o Deter atrasou dois meses.

O governo federal considera nevrálgica o dado do aumento da destruição da floresta, indicadora de que perdeu o controle do desmatamento. Por isso preferiria não vê-la publicada. Nunca antes na história deste país o relatório atrasou tanto, sem que algo de anômalo se abatesse sobre o Inpe.

A repercussão na eleição é óbvia: a redução do desflorestamento aconteceu no governo Lula quando Marina Silva era ministra do Meio Ambiente; com Dilma presidente, a tendência se inverteu. Agora as duas são candidatas. A preocupação com a floresta é maior entre eleitores das grandes cidades, onde Dilma tem mais rejeição e Marina, eleitorado maior.

É também relevante para compor o quadro (do desmatamento e da omissão dos dados) a informação de que o principal polo de destruição florestal é a região de Altamira, no Pará, onde é construída a hidrelétrica de Belo Monte. É o que mostra análise de vários dados do período 2010-13 (leia em http://goo.gl/vbgxHE).

A presidente Dilma se empenhou na aprovação da usina prometendo que ela não seria vetor de destruição ambiental massiva. Mas a destruição em torno da rodovia BR-163, que cruza a região, mostra que não há controles oficiais na área.

“Não há nada de novo sob o sol”, diz o bíblico “Eclesiastes”: na Amazônia, o desmatamento é a regra. O que se acrescenta –e que tampouco é novo– é a sonegação de uma informação de grande interesse social, aparentemente motivada por seus impactos eleitorais. É grave. Quem se preocupa com a Amazônia deve abrir bem os olhos.

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