Publicado por: ferdesigner | 08/07/2014

Mudança climática pede novo modelo de gestão

Por Paulo Vasconcellos | Para o Valor, do Rio

Claudio Tavares/Divulgação / Claudio Tavares/Divulgação

Marússia Whately: medida mais urgente é a saída do modelo tradicional

 

O agravamento das mudanças climáticas demanda uma nova abordagem para a escassez de recursos hídricos a fim de atender ao abastecimento das populações e garantir as atividades do setor produtivo. Um novo modelo de gestão da água e aumento de seu reúso são algumas das indicações. Reduzir as perdas dos sistemas de abastecimento, que fazem com que a falta d’água seja um problema até na região Norte, banhada pela maior bacia hidrográfica do país, também é essencial. Milhões de brasileiros enfrentam problemas de racionamento por causa do ciclo de estiagem que espalha prejuízos da agricultura à indústria.

“O problema da estiagem é um imponderável que precisa ser compensado pela gestão dos recursos hídricos. A medida mais urgente é a saída do modelo tradicional, que oferece água e depois vai atrás de mananciais, quando deveria trabalhar com a gestão de demanda. Isso não significa economizar mais água, mas reavaliar como os segmentos estão usando a água”, diz a especialista em gestão de recursos hídricos Marússia Whately. “Uma das alternativas é o tratamento de efluentes para se ter água de reúso e sobrecarregar menos os mananciais, mas no Brasil apenas 1% da água é reusada. Em Israel, 100% é reutilizada. A Austrália reaproveita pelo menos metade da água consumida”, afirma Gesner de Oliveira, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP).

A falta de água assombra cidades e regiões de norte a sul do Brasil não é de hoje. A Amazônia enfrentou uma das piores secas da sua história em 2005. Comunidades ficaram sem água e sem comida. As mudanças climáticas já ameaçam o regime dos rios amazônicos, que sobem na época da cheia e descem na época seca.

Nas duas últimas décadas, para cada dez safras, quatro frustraram os agricultores do Rio Grande do Sul por causa da estiagem. As perdas chegaram a 8,5 milhões de toneladas de grãos (soja, milho e feijão) e o prejuízo recorde bateu os R$ 3,64 bilhões. Quatrocentos e cinquenta e um municípios ficaram em situação de emergência ou estado de calamidade. A seca de 2006 foi a pior em mais de 70 anos no Paraná, com perdas de mais de 30% na safra agrícola. A falta de chuva provocou o racionamento de água na região de Curitiba, afetando mais de 1,8 milhão de pessoas.

Nos últimos três anos a estiagem só se agravou. O Nordeste enfrenta a pior seca em 50 anos. Só no Rio Grande do Norte 22 municípios enfrentam racionamento. Em oito, o abastecimento entrou em colapso. No começo deste ano, a seca afetou as principais regiões produtoras de leite do país: São Paulo, Triângulo Mineiro, sul de Goiás, noroeste do Rio Grande do Sul e oeste de Santa Catarina. O preço do produto teve um reajuste de mais de 5% em março na comparação com fevereiro e ajudou a puxar a inflação para cima. Cidades do Paraná, como Arapongas, estão com problema de abastecimento por causa da estiagem. Juiz de Fora, em Minas Gerais, também.

Municípios de São Paulo enfrentam racionamento desde 2012. Duzentas cidades estão em situação crítica e na iminência de racionamento. No começo de maio, a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) emitiu alerta sobre o estado crítico do abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo, que pode afetar 3,2 milhões de pessoas e pelo menos 75 empresas que captam água diretamente dos rios Piracicaba/Capivari/Jundiaí (PCJ), entre elas o Polo Petroquímico de Paulínia e as indústrias de Americana, Limeira, Piracicaba, Cosmópolis, Itatiba, Jaguariúna e Jundiaí.

O problema pode atingir ainda cerca de 8,1 milhões de habitantes abastecidos pelo Sistema Cantareira e mais de 15.000 atividades econômicas de pequeno e médio porte na capital paulista e nos municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Carapicuíba, São Caetano do Sul, Guarulhos, Barueri, Taboão da Serra e Santo André.

A Rhodia, uma das maiores indústrias químicas do Brasil, foi obrigada a interromper as operações de uma de suas linhas de produção no conjunto industrial de Paulínia. Em nota, a companhia explicou que mais de 90% da água captada é devolvida para o rio, mas o baixo volume das águas obrigou a interrupção parcial das atividades no complexo de Paulínia. Em Tambaú, localizada a 270 km da capital, as cerâmicas, principal atividade do município, que se orgulha do título de capital cerâmica vermelha, chegaram a reduzir a produção e demitir funcionários.

“Metade do municípios brasileiro poderá sofrer com desabastecimento no ano que vem porque a maioria dos sistemas está sendo operada com segurança hídrica pequena”, diz a especialista Marússia Whately. “O problema da água no Brasil tem mais a ver com o problema da gestão do que com o fenômeno físico. Não há universalização, a qualidade e a regularidade são precárias e a ineficiência, enorme”, diz Gesner de Oliveira.

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