Publicado por: ferdesigner | 04/06/2014

Governo erra em sua estimativa de geração hidrelétrica

Ex-consultor de Dilma e Especialista do setor elétrico, Mario Veiga diz que cálculos mostram capacidade insuficiente no país

VALDO CRUZDE BRASÍLIA

Especialista do setor elétrico, Mario Veiga diz que o país não tem capacidade de gerar a quantidade necessária de energia hidrelétrica. Em vez do excesso de 6.000 megawatts médios estimados pelo governo, ele afirma que cálculos mostram deficit de 2.000 MW, não considerados nas simulações oficiais.

Se houvesse o excesso apontado, não teria havido problemas em 2010, 2012 e 2013, quando a situação dos reservatórios era favorável, afirma. Em todos esse anos, as térmicas tiveram de ser acionadas.

Veiga recomenda ao governo adotar já um programa de redução de 6% no consumo. Isso para evitar os cenários de maior risco, levantados por sua consultoria, de os reservatórios chegarem a um nível de 10% em novembro, o que seria uma situação “complicada e perigosa”.

Engenheiro eletricista, presidente da consultoria PSR, Mario Veiga, 61, foi convidado pela presidente Dilma para, em 2012, integrar o grupo que fechou uma das principais apostas do governo: a redução das tarifas de energia.

O resultado final do plano, no entanto, foi criticado por ele após seu lançamento.

Folha – Por que o sistema elétrico entrou nesse período de estresse, com risco de falta de energia e preços altos?

Mario Veiga – Porque o governo deixou as distribuidoras ficarem sem contratos para entrega de energia e por uma deficiência estrutural da capacidade de geração, agravada em 2014 pela seca.

Em vez de o sistema ter um excesso de 6.000 MW médios, como estima o governo, há um deficit de 2.000 MW médios de suprimento.

Há dois mísseis. Um, da deficiência estrutural, que levou as térmicas a serem mais acionadas do que o normal, mesmo em anos de situação hidrológica m ais favorável, como em 2010, 2012 e mesmo 2013. O segundo é a descontratação das distribuidoras, que foi inédita.

O que significa, em percentuais, essa deficiência?

Em torno de 3,5% da capacidade de geração efetiva do país. Você precisaria colocar 3,5% a mais para restaurar o equilíbrio do sistema. Alertamos isso em 2010 e 2012.

Como vocês chegam a essa conclusão, enquanto o governo aponta excesso?

Em 2010, a energia armazenada nas hidrelétricas era maior do que em qualquer época da história. E as chuvas foram mais ou menos 90% da média histórica.

A gente brinca que 2010 deveria ser mamão com açúcar, não precisaria ligar as térmicas, os reservatórios atenderiam praticamente tudo. Foi exatamente o contrário.

Começamos com o maior armazenamento da história e terminamos com o pior.

2012 é quase um ano gêmeo de 2010, as condições foram muito parecidas e favoráveis. E o ano terminou ligando todas as térmicas, meio no desespero. Então tem algo errado com esse sistema.

O sistema estava esvaziando muito mais que o normal.

Qual o motivo da deficiência?

Fizemos uma análise detalhada para checar por que a capacidade de produção das hidrelétricas estava muito menor do que diz a teoria.

Por quê? Porque as restrições operativas que o ONS tem enfrentado no dia a dia são piores do que está nos estudos de planejamento.

O ONS conhece profundamente a operação do sistema, mas só pode trabalhar com os recursos que recebe. Esse é o recado principal.

Na época, fizemos a conta e dissemos que, para colocar o sistema na normalidade, levando em consideração as restrições operativas, você precisaria de mais 2.000 megawatts médios.

E o que aconteceu em 2013?

É um ano-chave para entender as preocupações dos técnicos. A afluência foi 100% da média, um ano perfeito sob o ponto de vista hidrológico. E as térmicas ficaram ligadas o tempo todo, gastamos aquela fortuna e terminamos o ano muito mal. Já estava armada a confusão para 2014. Isso acontece justamente por causa daquela deficiência de geração. Os modelos de simulação do governo não estão representando as restrições, os problemas operativos que o ONS está enfrentando na vida real.

Por exemplo?

Itaipu. Em 2014, a usina foi esvaziada em cinco metros, uma operação inédita, nunca na história ela esvaziou tanto, nem na época do racionamento.

Temos profundo respeito pela capacidade de operação do ONS. Se fez isso é porque enfrentou alguma restrição, o que levou a uma perda gigantesca de eficiência.

E os modelos de simulação do governo nem permitem a entrada dessa hipótese, o que é uma restrição operativa. As usinas acima de Itaipu estão vertendo água, sem gerar energia. Não faz sentido, nenhum modelo de simulação faria uma coisa dessa, porque é jogar água fora. A única explicação que temos é que o governo decidiu verter água para ajudar Itaipu.

É bom dizer que nós, da PSR, nem sabemos em detalhes quais são as restrições operativas. Recalibramos os parâmetros de 2010 e depois testamos simulando 2012 e 2013. E cravou o resultado. Nossos cálculos mostraram que havia uma deficiência de geração de energia, enquanto o governo diz o contrário.

Há risco de racionamento neste ano?

O que acontece se o governo não decretar nenhum tipo de redução da demanda? Há uma probabilidade de 46% de os reservatórios chegarem a novembro com apenas 10% de armazenamento. Isso é uma situação muito perigosa e complicada do ponto de vista operacional e o governo teria de adotar uma redução de demanda emergencial e muito mais profunda.

O que o governo deveria fazer?

Nossa recomendação é começar desde já uma redução de 6% da demanda.

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