Publicado por: ferdesigner | 29/04/2014

País faz gás viajar 7.700 km para ligar usina

Térmica mais cara do país, na fronteira com a Argentina, necessita de uma complicada operação para funcionar

Unidade funcionou por 60 dias em 2013, e empresa responsável pediu R$ 186 milhões de ressarcimento

FELIPE BÄCHTOLDDE PORTO ALEGRE

A emergência no setor elétrico levou o governo federal a elaborar uma complicada operação para acionar uma térmica que depende da Petrobras, de uma estatal do Rio Grande do Sul e de diplomacia com a Argentina.

O objetivo é suprir com gás natural a termelétrica de Uruguaiana (RS), na fronteira, e garantir energia para o Sul.

Segundo relatório do Operador Nacional do Sistema, a unidade é a que tem produção mais cara no país entre as movidas a gás –R$ 740 por megawatt-hora, ante custo médio de produção de térmicas a gás no país de R$ 260,51 por megawatt-hora.

A térmica gaúcha é dependente do combustível procedente do país vizinho. Mas, como a petrolífera YPF, estatizada em 2012 pelo governo Cristina Kirchner, parou de cumprir um acordo que vigorava na década passada para abastecer a unidade, a solução foi o Brasil transportar até lá o gás natural.

O périplo funciona assim: a Petrobras importa gás natural de Trinidad e Tobago (Caribe) e transporta por navio a carga por mais de 7.700 km até terminais de regaseificação da Argentina. A Sulgás, estatal gaúcha, compra o material da Petrobras e o injeta na rede do país vizinho.

Os argentinos, então, liberam volume equivalente de seus gasodutos na fronteira com o Brasil, permitindo o acionamento da térmica.

Em território brasileiro, a AES Uruguaiana, responsável pela térmica, adquire o insumo da Sulgás.

As partes não revelam os custos. No ano passado, o esquema emergencial funcionou pela primeira vez, por 60 dias, e a AES recebeu aval da Aneel (agência reguladora) para obter R$ 186 milhões de ressarcimento pela operação.

Parte dos gastos no país com térmicas (de quase R$ 10 bilhões em 2013) será repassada aos consumidores.

MUDANÇA DE PLANOS

O acionamento de Uruguaiana foi precedido por uma mudança na visão do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, composto por Ministério de Minas e Energia e outras entidades da área.

Em dezembro passado, o grupo informou que a operação da unidade gaúcha só ocorreria “em caso de extrema necessidade” devido ao “custo elevado”.

Dois meses depois, os planos mudaram. Segundo o comitê, houve acordo entre o ministro Edison Lobão (Minas e Energia) e o Ministério do Planejamento argentino para retomar a operação.

A térmica começou a funcionar em 9 de março e deverá operar por 60 dias.

ARBITRAGEM

A história da unidade de Uruguaiana traz ainda um imbróglio entre os dois países, ainda longe de uma solução. Inaugurada em 2000, ela funcionou até 2008 com gás encaminhado pela YPF.

Diante da crise argentina de energia, os responsáveis pararam de fornecer o combustível aos brasileiros.

De 2009 a 2013, a usina ficou sem atividade, acumulando prejuízos. O caso foi parar em uma corte de arbitragem internacional em Paris.

Em 2013, essa câmara deu decisão favorável à AES, que pedia ressarcimentos, mas o caso ainda não foi encerrado.

Mesmo com essa disputa, o Brasil decidiu firmar novo acordo com o país vizinho. Não há como acionar a usina sem participação argentina.

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