Publicado por: ferdesigner | 11/03/2014

À espera do Velho Chico

Nordestino sofre com atraso na transposição do São Francisco e uma seca que já entra no terceiro ano

Alexa Salomão, de O Estado de S.Paulo

O Castanhão, o maior açude do Brasil, localizado no Ceará, é tão grande que pode ser visto do espaço. Armazena 6,7 bilhões de metros cúbicos de água. É sete vezes maior do que o sistema da Cantareira, o reservatório da região metropolitana de São Paulo. Ao entrar em seu terceiro ano, a seca que castiga o Nordeste chega a esse oásis. Pela primeira vez desde a inauguração, em 2002, o Castanhão está com 38% da capacidade.

Para preservar sua água, duas grandes áreas agrícolas irrigadas por ele, Tabuleiro das Russas e Chapada do Apodi, não podem, a partir de 2014, expandir a área de plantio. Se a água baixar mais, os piscicultores terão de reduzir a produção. “Estamos tensos, porque um corte na criação de peixes significa corte de empregos”, diz Cristiano de Almeida, que cria tilápias no leito do açude. A economia no entorno do Castanhão gera mais de 6 mil empregos diretos.

Tanta tensão não existiria tivesse a transposição do Rio São Francisco sido concluída em 2010, como previu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Castanhão é o maior açude de uma lista de 21 que pelo projeto serão perenizados pela transposição em Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. A reportagem do Estado percorreu 2,2 mil km de estradas para visitar seis deles: Além do Castanhão, Entremontes e Chapéu, em Pernambuco, São Gonçalo, Mãe D’Água e Coremas, na Paraíba (veja mapa). No caminho encontrou muita expectativa, frustação e prejuízos – traduzidos em animais mortos pela sede e culturas ceifadas por racionamentos de água – no que parece ser a espera sem fim pela águas do Velho Chico.

Dilema da água. Neste começo de ano, instalou-se uma fornalha no Sudeste e no Sul do Brasil. Cidades como São Paulo, a terra da garoa, sofreram com temperaturas acima dos 30 graus. Os moradores da Capital ainda tomaram um susto ao saber que o Sistema da Cantareira, a principal fonte de água, estava com 20% da capacidade. O que tranquiliza é saber que os incômodos passam. Vai chover em algumas semanas. Fazer frio em poucos meses. O susto passa. Mas imagine se não passasse.

Pois no interior do Nordeste, na região conhecida como semiárido, é assim quase sempre. Nessa parte do Brasil onde vivem cerca de 13 milhões de pessoas – praticamente uma região metropolitana de São Paulo –, o clima pode ficar assim por anos. E ninguém sabe quando começa ou termina uma seca.

Neste momento, por exemplo, a estiagem entra no terceiro ano. Como nessas condições a água é um bem raro e precioso, há uma escala de importância para o seu uso. Primeiro, corta-se o suprimento da agricultura. Em seguida, o dos animais. A prioridade é manter até a última gota para o consumo humano. O perímetro irrigado de São Gonçalo, no município de Souza, na Paraíba, vive essa regra na prática.

Criada em 1972, essa gigantesca fazenda, com 7,5 mil habitantes e 2,5 mil empregados, depende exclusivamente do abastecimento do açude São Gonçalo. Há vários tipos de cultura no local, mas o destaque é a produção do coco verde que, por sua qualidade, domina os mercados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Um coco vendido na praia de Ipanema e no Parque do Ibirapuera tem uma enorme probabilidade de ter sido cultivado por lá.

Em meados do ano passado, pela primeira vez na história, cortaram a água do perímetro para garantir o abastecimento de cidades como Souza. De lá para cá, o açude só fez baixar. Hoje está com 17% da capacidade, o que colocou a região, incluindo Souza, sob racionamento. Só há água a cada três dias.

Indignação. Entre os produtores do perímetro – há quase um ano sem água –, a indignação é generalizada. “O governo gastou todo dinheiro com os estádios da Copa e não sobrou para a transposição”, diz o produtor Sidnaldo Silva Filho, 44 anos. Silva mantém a cultura de bananas a duras penas, com água de poços, mas perdeu produtividade. A receita na propriedade da família equivale a um terço da conseguida quando há chuvas normais.

A dois quilômetros dali, Pedro de Lira Maciel, de 60 anos, é só revolta. “Meus 600 pés de cocos morreram, vendi todas as 20 cabeças de gado que tinha para não ver os bichos com sede, faço bicos e peço dinheiro emprestado para terminar de pagar por essa terra, senão vão me tomar”, diz Maciel. “Cadê a transposição do São Francisco que era a promessa de água para nós?”

Nas cidades à espera do Velho Chico, todos os moradores sabem de cor a proposta da transposição: perenizar rios, riachos e açudes, além de alimentar grandes adutoras, para garantir o abastecimento das cidades e liberar água para a agropecuária. Em resumo: fazer a emancipação econômica de uma das áreas mais carentes do País.

Isamar Félix Peixoto, de apenas 21 anos, pode dar uma aula sobre os futuros benefícios da transposição enquanto carrega o carro-pipa do pai nas águas do Açude Mãe D’Água, na cidade de Piancó, também na Paraíba. Na vizinha Coremas, o agricultor aposentado João Alves Sobrinho, 72 anos, lamenta o atraso da obra enquanto observa a ilha que emergiu no leito do açude Coremas, outro que seca devagar. “O governo tem uma riqueza medonha, não entendo porque a água do São Francisco ainda não chegou aqui”, diz Alves.

Apesar de consumir cada vez mais recursos – o investimento agora é de R$ 8,2 bilhões, 70% do previsto inicialmente –, a obra da transposição está com um atraso de quatro anos, no meio da maior seca em décadas. O ministro da Integração, Francisco Teixeira, lamenta as perdas. “Eu entendo o sentimento dos produtores porque essa seca é penosa, mas o governo tomou todas as providências para amparar a população e superar os muitos problemas que atrasaram a obra. A transposição será concluída em 2015”, diz.

No Nordeste, há 101 projetos de irrigação – 99 dependem de um açude. Entre os 37 que estão sob a gestão do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca, o Dnocs, 70% têm alguma restrição no abastecimento. “O governo acabou com a fome e a escuridão no Nordeste, mas não consegue acabar com a sede”, diz Sebastião Guimarães, diretor do Dnocs na região do açude São Gonçalo. Ao receber a reportagem, ele pediu à secretária que servisse café. Ela saiu calada, mas foi pedir ajuda. Não havia água no prédio, nem para os banheiros, muito menos para o café – que afinal foi servido com água oferecida pelo fotógrafo do Estado. À espera do lado de fora do escritório, ele espantou-se com o alvoroço dos funcionários e lhes entregou a garrafinha de água mineral que levava na mochila.

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