Publicado por: ferdesigner | 26/02/2014

Árvores crescem até a morte

Como eu estava enganado! Eu e o resto dos cientistas. Todos acreditavam que as árvores cresciam como os seres humanos, rapidamente no início da vida, mais lentamente na idade adulta, e praticamente nada após atingirem a maturidade. Mas, agora, um grupo de ecologistas mediu diretamente o crescimento das árvores em florestas nativas. Descobriram que, quanto maior a árvore, mais ela cresce a cada ano. Essa descoberta promete revolucionar as estratégias de manejo e preservação de florestas.

Os ecologistas tinham bons motivos para acreditar que as árvores grandes param de crescer. Em florestas plantadas, como as de eucaliptos, medidas cuidadosas demonstram que a produtividade diminui ao longo do tempo. Assim, cada tonelada de floresta viva produz menos toneladas de madeira nova a cada ano que passa. É por isso que essas florestas são cortadas com aproximadamente 7 anos, exatamente no momento em que a queda de produtividade começa a afetar o retorno do investimento feito na plantação e manutenção da floresta. Outro dado bem conhecido é a diminuição da eficiência das folhas com o aumento do tamanho das árvores. Quanto maior a árvore, a quantidade de massa produzida por folha ao longo de um ano vai diminuindo. Com base nessas duas medidas, os cientistas sempre acreditaram que as árvores muito grandes não contribuem tanto para o aumento da quantidade de madeira na floresta.

Mas, em ciência, as extrapolações a partir de dados indiretos representam um grande perigo. Passamos a acreditar que a extrapolação é verdade e não medimos o fenômeno diretamente. Ainda bem que existem cientistas desconfiados, como o grupo que resolveu medir diretamente a quantidade de madeira produzida por árvores individuais, em diferentes estágios de seu crescimento.

O crescimento de 673.046 árvores foi medido a cada 5 ou 10 anos em florestas localizadas em áreas preservadas, em todos os continentes, e em todos os tipos de florestas. Trinta grupos de pesquisadores contribuíram com dados para o estudo.

No total, foram analisadas árvores de 403 espécies. Para entrar no estudo as espécies de árvores tinham de ter no mínimo 40 exemplares medidos ao longo de 10 anos e um diâmetro mínimo. Na média, as árvores tinham 92 centímetros de diâmetro, mas as maiores chegaram a 2,7 metros.

Para cada árvore se mediu o peso total em cada ano (estimado a partir da densidade da madeira e medidas de diâmetro dos troncos e galhos) e o quanto este peso havia aumentado a cada ano, durante o período de coleta de dados. Com esses dados foram feitos gráficos que relacionavam a quantidade de madeira nova produzida por árvore em função de seu tamanho. Os gráficos obtidos são extremamente claros. Quanto maior a árvore, mais ela cresce a cada ano. Somente 3% de todas as espécies de árvores analisadas param de crescer quando atingem um dado tamanho, as outra 97% continuam a crescer até morrer. Os seja, nas florestas nativas as árvores nunca param de crescer.

Na média, uma árvore com um tronco de 1 metro de diâmetro (medido a 1,4 metro do solo) “engorda” (ou aumenta de peso) 103 quilos a cada ano. Dependendo da espécie, esse valor poderia variar de 10 a 200 quilos. As maiores árvores analisadas nesse estudo aumentam seu peso em 600 quilos durante um ano. O trabalho contém tabelas que permitem estimar quanto uma árvore cresce por ano. Basta você medir o diâmetro do tronco e saber a que espécie ela pertence.

As florestas nativas são um grande celeiro de carbono. Quando crescem, elas transformam gás carbônico em celulose, retirando gás carbônico da atmosfera (e, se forem queimadas, liberam grandes quantidades deste gás causador do efeito estufa). É por este motivo que é importante entender qual a contribuição de cada planta presente na floresta no processo de sequestro de carbono. Esse estudo demonstra pela primeira vez que a contribuição das árvores grandes é muito maior do que se imaginava. Em alguns casos, uma árvore com um tronco de 1 metro fixa a mesma quantidade de gás carbônico que uma dúzia de árvores de 30 centímetros de diâmetro.

Esta descoberta vai forçar os cientistas a reanalisar as práticas de manejo em florestas nativas. Atualmente, são cortadas as árvores maiores. Um dos motivos é a crença (que agora está destruída) de que árvores grandes não crescem e, portanto, não contribuem para a fixação de carbono.

É impressionante como uma medida tão simples quanto essa nunca havia sido feita com cuidado. É um bom exemplo de como crenças científicas que se baseiam em inferências indiretas podem estar erradas. Ainda bem que existem cientistas teimosos que correm o risco de chover no molhado medindo coisas que muitos acreditam que não precisam ser medidas.

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