Publicado por: ferdesigner | 28/08/2013

Empresas de energia lucram com o derretimento do Ártico

Aquecimento global trouxe oportunidades comerciais inéditas

Por ANDREW E. KRAMER

CAMPO DE GÁS YURKHAROVSKOYE, RÚSSIA – A calota de gelo polar está derretendo. Se os executivos da empresa russa de energia Novatek se sentem culpados por lucrar com a situação, isso não transparece ao público.

Desta costa fria no oceano Ártico, onde a Novatek possui enormes depósitos de gás natural, um trecho com milhares de quilômetros de águas sem gelo leva à China. A empresa pretende transportar o gás diretamente para lá.

“Se nós não vendermos o combustível, alguém o fará”, declarou em junho Mikhail Lozovoi, porta-voz da Novatek, dando de ombros.

A Novatek, em parceria com a empresa francesa de energia Total e a China National Petroleum Corp., está construindo uma usina de gás natural liquefeito de US$ 20 bilhões na costa da Rússia no Ártico. Trata-se de um dos primeiros grandes projetos de energia que se aproveitam do descongelamento do Ártico no verão, causado pelo aquecimento global.

A usina, chamada Yamal LNG, enviará gás para a Ásia ao longo da faixa marítima conhecida como Passagem do Nordeste, aberta para transportes nacionais regulares há apenas quatro anos.

“Essa situação é uma realidade e, comercialmente, a nova rota reduz custos”, argumentou Emily Stromquist, analista de energia global do Eurasia Group, numa entrevista por telefone.

Devido à melhoria das condições do gelo e a novos projetos de cascos para embarcações, os petroleiros nem mesmo precisarão de quebra-gelos de propulsão nuclear para abrir caminho -como ocorre atualmente-, exceto nos estreitos mais ao norte.

A alternativa da Novatek foi prolongar o gasoduto de gás natural que vai até a Europa por centenas de quilômetros de tundra, com alto custo.

Este não é o primeiro empreendimento ártico a usar faixas marítimas “recém-liberadas”. A decisão de abrir o oceano Ártico para a perfuração passou no parlamento russo em 2008, como emenda a uma lei sobre recursos abaixo do solo.

A Exxon e a Rosneft, companhia estatal de petróleo russa, já estão num empreendimento conjunto para perfurar o mar de Kara e, em junho, concordaram em expandir suas operações para sete novos blocos de exploração no Ártico. Catorze poços estão nos planos.

Com esses empreendimentos, a Exxon se colocou na vanguarda das companhias de petróleo que exploram oportunidades comerciais do aquecimento global.

Na Rússia, a empresa de mineração Norilsk agora pode transportar níquel e cobre pelo oceano Ártico sem fretar navios quebra-gelo, economizando milhões para os acionistas. A Noruega também está perfurando em águas do Ártico, mas tem menos território para explorar. A Tschudi, empresa norueguesa de transporte, comprou e reabriu uma mina ociosa de ferro no norte da Noruega -para enviar minério à China pela rota do norte.

No noroeste do Alasca, a mina de chumbo e zinco Red Dog transporta seu minério pelo estreito de Bering, que está menos entupido de gelo do que nas últimas décadas.

A novidade no projeto da Novatek é um plano de negócios que se apoia explicitamente na passagem do Nordeste.

A empresa alemã de transportes Beluga realizou o primeiro transporte comercial internacional em 2009. O primeiro carregamento de combustível, uma carga de gás condensado com destino à China, fez o percurso em 2010. No verão passado, apenas três anos após a primeira passagem, 50 navios cruzaram acima da Rússia, incluindo oito petroleiros fretados pela Novatek.

Se a Rússia conseguir transportar grandes volumes de gás para a Ásia, isso poderá afetar os mercados asiáticos e atrapalhar os planos de construção de terminais de exportação de gás natural liquefeito no golfo do México. EUA e Rússia são os dois maiores produtores mundiais de gás.

A Novatek vem testando modelos comerciais para complementar a nova rota de transporte. Para cumprir contratos no inverno, quando a rota do norte é mais arriscada, a empresa pode enviar gás para o oeste pelo norte da Rússia e então ao redor da Europa, pelo canal de Suez.

Ela também negociou com o Qatar, importante exportador de gás natural no Oriente Médio, por uma troca para economizar combustível e tempo dos navios petroleiros: o Qatar atenderia os contratos asiáticos da Novatek durante o inverno, enquanto a Novatek cumpriria os contratos do Qatar com clientes europeus durante esses meses.

A empresa pretende abrir a usina do Ártico até 2016. Ela já solicitou propostas para dois petroleiros com proteção contra o gelo, que conseguiriam navegar as faixas marítimas em direção à China durante sete meses por ano -e as rotas para o oeste o ano todo.

Ela diz ter dominado a construção no extremo norte, onde os russos trabalham principalmente durante a fria noite polar do inverno -quando a tundra é mais acessível a equipamentos pesados.

A empresa, segundo Lozovoi, está atenta em relação a estudos sobre o clima no Ártico.

Ele afirmou que, graças a especificações de engenharia inseridas nos projetos dos navios, “mesmo se o clima voltar a esfriar e o gelo ficar mais grosso, continuaremos ganhando dinheiro”.

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