Publicado por: ferdesigner | 01/03/2013

Termelétricas engolem ganho com desconto na conta de luz

 Termelétrica Celso Furtado, da Petrobras, na Bahia: dúvida sobre setor adia contratos Foto: Divulgação

Termelétrica Celso Furtado, da Petrobras, na Bahia: dúvida sobre setor adia  contratos Divulgação

SÃO PAULO e BRASÍLIA – O custo para o acionamento das usinas termelétricas  deve anular em fevereiro praticamente todo o benefício que as indústrias  receberiam com a medida provisória (MP) 579, que segundo o governo reduziria em  até 28% a conta de energia elétrica do setor. De acordo com cálculo da  Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de  Consumidores Livres (Abrace), o Encargo de Serviços do Sistema (ESS), usado para  compensar o gasto com as termelétricas, deve atingir R$ 22 por MWh no mês,  totalizando um custo de R$ 933 milhões, frente a um desconto médio de R$ 24 por  MWh propiciado pela MP. Se somado ao mês de janeiro, o custo dos encargos com as  termelétricas para as indústrias chega a R$ 1,5 bilhão, de acordo com a Abrace.  O valor já responde por mais da metade dos R$ 2,7 bilhões desembolsados em todo  o ano passado.

— Existe uma distorção no modelo de precificação do mercado à vista que  prejudica os consumidores com contratos a longo prazo — diz Paulo Pedrosa,  presidente-executivo da Abrace.

Pedrosa explica que a principal distorção se encontra na fórmula de cálculo  do ESS. O encargo é calculado a partir do custo de combustível das usinas  termelétricas, descontado o chamado Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), que  baliza os contratos de energia no mercado de curto prazo. O problema é que esses  contratos de curto prazo se mantiveram estáveis em fevereiro, enquanto as  termelétricas continuaram ligadas para tentar compensar os níveis baixos dos  reservatórios.

— Não deixa de ser um certo paradoxo termos termelétricas despachando a R$  1.000 o MWh, enquanto o PLD está entre R$ 200 e R$ 300. Esse preço, que é de uma  certa forma irreal, gera uma transferência de renda muito grande no setor de  energia. A grande indústria, que não pode especular, está atendida em contratos  a longo prazo. E esses contratos deveriam ser a proteção contra o preço alto —  afirma.

Dilma nega risco de racionamento

A entidade explica que, diferentemente dos consumidores residenciais, que só  vão pagar o ESS depois dos reajustes anuais de suas distribuidoras com os  efeitos diluídos no tempo, a indústria que está contratada no mercado livre paga  esse encargo mensalmente. Por esse motivo, o desconto das tarifas promovido pela  MP será corroído quase totalmente pelo ESS.

Pedrosa diz que o mercado não sabe por quanto tempo as usinas termelétricas  devem permanecer ligadas. Essa incerteza, segundo ele, levou a uma paralisação  nos contratos a longo prazo.

— Hoje ninguém está contratando, porque ninguém vende. Todo mundo está  esperando para ver o que vai acontecer. O governo está querendo fazer leilão de  ajuste, mas os geradores vão preferir vender no preço spot (à vista) do que  vender para a distribuidora — diz o presidente-executivo da Abrace.

Segundo a Abrace, a queda de 3% na produção industrial de 2012 reflete em boa  parte o aumento do custo da energia elétrica, que chega a representar 40% dos  custos totais da indústria.

O ministro interino da Fazenda, Nelson Barbosa, confirmou que a equipe  econômica está estudando uma forma de compensar as distribuidoras pelo aumento  de custo que elas estão tendo com o uso de energia térmica.

— Estamos discutindo formas de viabilizar o financiamento a curto prazo para  compensar o impacto inicial transitório do custo das térmicas — diz Barbosa.

Ao discursar hoje na primeira reunião do ano do Conselho de Desenvolvimento  Econômico e Social, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o uso de energia  térmica no Brasil faz “parte do ofício” e criticou aqueles que apontam um risco  de racionamento no Brasil.

— O que não é admissível é que se crie instabilidade onde não há  instabilidade. Não é possível que se diga que vai haver racionamento quando não  vai haver racionamento — disse Dilma.

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