Publicado por: ferdesigner | 01/03/2013

Alteração da biodiversidade cria ambiente propício para a proliferação de doenças

Animais, como a capivara, viram transmissores potenciais de  enfermidades

 Urbanização aumenta a incidência de animais infectados Foto: Marcos Alves

Urbanização aumenta a incidência de animais infectados Marcos Alves

RIO – Muito se fala sobre a necessidade de manter as florestas em pé, de não  poluir as águas e ainda há um acalorado debate mundial em torno das  consequências das mudanças climáticas. No Brasil, houve queda de braço na  discussão do Código Florestal para decidir quanto de mata nativa deveria ser  mantida à beira de rios e nascentes, com o intuito de preservá-los. Mas poucos  vão direto ao assunto: o objetivo disso tudo não é preservar a natureza. É  proteger o próprio homem.

Num mundo de sete bilhões de pessoas em que predominam níveis de consumo  considerados insustentáveis pelo Painel de Alto Nível de Pessoas Eminentes das  Nações Unidas (ONU) e o homem altera, ocupa, reduz e destrói ecossistemas, o que  está em jogo é a saúde humana. A biodiversidade presta uma série de serviços à  humanidade e um deles é a regulação de doenças. Ao ser alterada, o equilíbrio se  modifica.

— A necessidade de conservar a biodiversidade não é sentimental ou emotiva.  Somos dependentes dela, a começar pelo ar que respiramos. O homem é uma espécie  tecnológica e, ao mesmo tempo, um ser vivo que depende do oxigênio. Se ele  faltar por dois a três minutos, morremos — diz o professor Cléber Alho, Ph.D em  Análise e Conservação da Biodiversidade, ao comentar o artigo “Importância da  biodiversidade para a saúde humana: uma perspectiva ecológica”, publicado pelo  Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e que serviu de base  para essa reportagem.

O trabalho é um alerta para a proliferação de doenças causadas por alterações  no meio ambiente. E elas não estão apenas em rincões distantes. No Brasil, há  exemplos na Amazônia, mas Sul e Sudeste, regiões altamente urbanizadas, estão  também repletas deles.

Até outubro passado, Pedro, de 10 anos, era um dos quase 30 milhões de  moradores da macrometrópole formada por Campinas e São Paulo, a região mais rica  do país.

O garoto disputava olimpíadas de matemática, gostava de nadar e de usar  computador, como qualquer menino da sua idade. Pedro morreu no último dia 20 de  outubro, uma semana depois de ser acometido por uma febre de 41 graus que  parecia sarampo, meningite ou dengue. Não era nada disso. Era febre maculosa,  doença transmitida pelo carrapato-estrela após ser contaminado pela bactéria  Rickettsia rickettsii.

— Morei em fazenda, nunca imaginei que um carrapato pudesse matar — diz, com  os olhos cheios d’água, Anita Rufii, 60 anos, a avó de Pedro.

O menino não vivia em nenhuma fazenda. Ele morava numa escola estadual de  Campinas, onde seus avós são zeladores e cuidam também de um pequeno clube  municipal nos fundos do colégio. Da escola ao clube, basta atravessar uma rua do  distrito Joaquim Egídio, a menos de 10 km do centro de Campinas. Ao lado do  distrito de Sousas, o local é um reduto onde a expansão imobiliária chegou mais  tarde e as áreas verdes estão mais preservadas. Carrapatos foram achados na  grama do clube. No jardim da escola foram capturados apenas dois.

Alta letalidade

Campinas e Piracicaba estão nas bacias de rios importantes, como Piracicaba,  Corumbataí, Capivari e Atibaia. Quando a mata era densa e preservada, havia  predadores, como onças e sucuris. Com a urbanização intensa, foram-se os  predadores, ficaram as capivaras — hospedeiras do carrapato-estrela.

Reconhecida no Brasil desde os anos 30, a doença atravessou cinco décadas em  silêncio epidemiológico até ressurgir nos anos 1980 na Grande São Paulo e em  municípios como Jaguariúna e Pedreira. Em uma década, o número de focos  quintuplicou. Ao contrário da dengue, que adoenta milhares de pessoas, a febre  maculosa atinge pouca gente. Segundo o Ministério da Saúde, foram 119 casos em  2012 e, no ano anterior, 156 registros — 70% deles em São Paulo.

O que assusta é a alta taxa de letalidade. De 1985 a 2004, ocorreram 160  casos no estado de São Paulo, com 70 óbitos. Das cinco pessoas que contraíram a  doença em Campinas no ano passado, três morreram — uma delas foi Pedro. Em  Piracicaba, foram 11 casos em 2012. Oito morreram.

— A capivara é semelhante ao homem. Gosta de clareiras e locais abertos. Usa  fragmentos arbóreos para parir e descansar e precisa de água, pois copula dentro  dela. E precisa de muito alimento. Na região há superabundância de comida em  plantações de cana-de-açúcar e milho e os rios são rotas de escape e trânsito —  diz o engenheiro agrônomo Carlos Alberto Perez, coordenador do Projeto de  Controle de Carrapatos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz  (Esalq/USP), cujo campus na cidade de Piracicaba serve de refúgio para os  animais.

Em 2002, o filho de um dos professores da universidade também morreu vítima  da febre maculosa, assim como Pedro.

Segundo Perez, não dá para usar carrapaticida em grande escala, sob risco de  contaminar as águas das bacias hidrográficas, usadas para consumo humano, e  matar os peixes. O jeito tem sido instalar alambrados para impedir que as  capivaras invadam o campus. Em Campinas, o Ibama autorizou o abate de 20 animais  que viviam no Largo do Café, parque turístico da cidade. Entre 2006 e 2008, três  funcionários da prefeitura, que trabalhavam no local, morreram vítimas da  doença.

Disputa silenciosa

Placas à beira dos rios da região, cujas águas correm a não mais que dez  passos do asfalto, alertam para o risco da doença. Uma fêmea de  carrapato-estrela infectada e fecundada deposita no solo entre cinco mil e sete  mil ovos. Cada um deles dará origem a outro carrapato infectado. Difíceis de  serem vistos na fase de larvas (micuim), os filhotes ficam em gramas, arbustos e  até em árvores, sem se alimentar por até seis meses à espera de um hospedeiro.  Um carrapato infectado propaga a bactéria por toda a sua vida útil, que varia de  18 a 24 meses.

Protegida por lei, a capivara é um dos exemplos de um animal que se  urbanizou. No principal ponto turístico de Piracicaba, o mirante do rio, elas  costumam aparecer para tomar a fresca nos fins de tarde. Em Campinas, numa  disputa silenciosa por território, marcam presença em parques onde não há ainda  indícios de contaminação. O que as diferenciam de outros hospedeiros do  carrapato-estrela é que uma capivara contaminada repete o ciclo, infectando mais  carrapatos.

O que chama atenção em Campinas e em Piracicaba é a velocidade com que essas  duas cidades vêm avançando sobre matas antes preservadas e Áreas de Preservação  Permanente (APPs). Segundo Perez, alguns condomínios residenciais lançados em  municípios do entorno da capital paulista, com apelo de uma vida mais saudável  e, sobretudo, vendidos como um projeto imobiliário próximo da natureza, já  convivem com o risco de infestação de carrapato-estrela.

— É preciso colocar o risco à saúde na equação do plano diretor e urbanístico  das cidades e não apenas o impacto que a expansão vai causar a rios e encostas —  alerta o médico infectologista Rodrigo Angerami, do Departamento de Vigilância  em Saúde de Campinas, que defende um plano de manejo para impedir a proliferação  de capivaras em áreas urbanas, uma vez que o roedor não está na lista de  extinção.

Claudia Portes Santos Silva, vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação  em Biodiversidade e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), explica que,  quando uma mata é retirada, doenças que antes estavam restritas a ela passam a  invadir outros biomas. Também as mudanças climáticas influenciam a propagação de  doenças.

O aumento da temperatura global reduz o tempo de desenvolvimento de larvas e  aumenta a taxa de picadas de insetos, o que faz crescer o risco de malária. Em  sua tese de Doutorado na USP, Gabriel Laporta mostrou que vírus e parasitas,  causadores de doenças como encefalites e febre amarela, circulam silenciosamente  em áreas de Mata Atlântica preservada do Vale do Ribeira (SP), onde vivem pelo  menos 200 espécies de mosquitos. Ele observa que a proporção de mata na paisagem  regula a quantidade e a abundância das espécies, diminuindo o risco de exposição  dos humanos. Ou seja, quanto maior o número de espécies de mosquitos, menor o  risco de transmissão de doenças, e não o contrário. Ele cita ainda um estudo  realizado em 2010 em Mâncio Lima, no Acre, que correlacionou 4,3% de mudança na  paisagem natural, provocada por desmatamento, a uma alta da ordem de 48% na  incidência de malária.

Última fronteira de ocupação e palco de grandes obras de infraestrutura, a  Amazônia brasileira se tornou alvo de estudos na área de saúde. Anthony  Guimarães, do setor de Interações da Biodiversidade do Instituto Oswaldo Cruz,  afirma que o entorno dos reservatórios de hidrelétricas se transformaram em  excelentes criadouros de mosquitos, em especial o Anopheles darlingi,  principal transmissor da malária no Brasil:

— No caso da febre amarela silvestre, embora o mosquito vetor do vírus  causador da doença, Haemagogus janthinomys, não deposite os ovos às  margens do reservatório das usinas, o desmatamento provoca a migração de bandos  de macacos que são os disseminadores do vírus.

Com as alterações ambientais, também a imagem da casinha de pau a pique  associada ao risco da Doença de Chagas acabou. Embora o número de casos da  doença no Brasil tenha diminuído, ainda há focos na Amazônia e no semiárido.  Segundo José Rodrigues Coura, chefe do Laboratório de Doenças Parasitárias do  Instituto Oswaldo Cruz e um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Medicina  Tropical, o novo foco da Ciência são os casos agudos registrados na região  amazônica.

Estudos mostram que pelo menos 50 espécies de vetores silvestres podem se  adaptar ao meio doméstico. Segundo Coura, palmeiras de piaçava da região são  infestadas de vetores, o que faz com que a doença se espalhe entre os coletores  de piaçava. Em grandes cidades, palmeiras imperiais usadas para ornamentar vias,  boa parte delas levadas de outras regiões do país, atraem barbeiros e têm se  tornado alvo de infestação. Há registros deste tipo em Araçatuba, no interior de  São Paulo, onde não houve transmissão da doença, e em Salvador.

Mesmo regiões que sequer abrigam o barbeiro registram a Doença de Chagas. São  300 mil casos nos Estados Unidos, três mil no Canadá e na Austrália, 80 mil na  Europa e cinco mil no Japão, originados por imigração de pessoas. O registro da  doença obriga a rigorosos e caros controles nos bancos de sangue para evitar a  contaminação por transfusão. Coura lembra que em Barcelona foi criado um centro  de atendimento específico para tratar portadores da doença, mas muitos  imigrantes ilegais não se tratam com receio de serem extraditados.

Outras doenças associadas a alterações no meio ambiente são a hantavirose e a  leshmaniose. O Ministério da Saúde registrou 118 casos de hantavirose e 3.894 de  leshmaniose em 2011 em todo o país. No Paraná foram notificados este ano oito  casos de hantavirose, com cinco mortes. Assim como a febre maculosa, a  hantavirose é uma doença de ação rápida, que começa com sinais de gripe e pode  resultar em insuficiência respiratória grave, causando a morte. Hoje, as áreas  endêmicas do Paraná são municípios vizinhos a florestas e o contágio se dá  principalmente com a aspiração de poeira em ambientes fechados frequentados  pelos ratos silvestres, como paióis.

— A hantavirose é uma doença emergente fortemente ligada à ação ambiental —  afirma Gisélia Rubio, da Divisão de Zoonoses da Secretaria de Saúde do  Paraná.

O vírus causador da doença, o hantavírus, é silvestre e sua transmissão é  feita por roedores silvestres, ou rato do mato, cada vez mais próximos de áreas  urbanas. O primeiro surto no Paraná ocorreu nos anos 2000. Gisélia conta que  áreas de Mata Atlântica haviam sido substituídas por extensas plantações de  pinus, para atender a indústria de papel. O rato do mato se adaptou à  monocultura, passando a se alimentar de suas sementes. Oré, uma praga de  lavoura, a vespa da madeira, tratou de destruir o novo arranjo ecológico,  atacando as árvores de pinus. Para evitar que ela se alastrasse país afora, as  florestas de pinus foram postas abaixo.

Famintos, os roedores buscaram a oferta mais imediata de alimentos: a comida  dos operários convocados a cortar a floresta. Os alojamentos precários,  inseridos no meio das plantações, facilitaram o contato com o vírus, transmitido  pelo contato pelas fezes, urina e saliva de roedores.

Toda vez que o desmatamento reduz a fonte de alimentação de uma espécie em  seu habitat, ela busca novas formas de sobrevivência. Algumas  desaparecem. Outras passam a atacar o homem e seus animais domésticos. É o que  acontece com flebótomo (mosquito palha), transmissor das leshmanioses  visceral e tegumentar, cuja proliferação tem ocorrido também por conta de  mudanças climáticas. Um estudo feito em 2002 mostrou que o fenômeno El Niño, que  causa longos períodos de seca seguidos por chuvas fortes na Bahia, fez aumentar  a incidência da doença no estado entre 30% e 40%.

O mosquito palha se infecta ao picar animais silvestres que carregam o  parasita. Próximo a aglomerados urbanos, o cão se torna o principal hospedeiro.  Até os anos 90, a maioria dos casos da doença ocorria em áreas rurais do  Nordeste. Hoje, a doença está presente em todas as regiões do país.

— A perda de ambientes naturais força o mosquito a buscar abrigo e alimento.  Na mata, o flebótomo come roedores, gambás e lobos. Sem eles, passou a  se alimentar no cão. Ou seja, houve uma domicialização do mosquito — explica  Celeste Souza, pesquisadora da Fiocruz.

Celeste afirma que a leshmaniose visceral, que ataca as vísceras e pode  matar, ocorria em áreas definidas e durante intervenções em florestas, como  abertura de estradas:

— Agora a leshmaniose se urbanizou. Mudou o perfil da doença.

A enfermidade tem provocado surtos em cidades que mantêm fragmentos de  florestas e em aglomerados urbanos formados por processo de migração. No Brasil,  o principal elo na transmissão da doença é o cão, mas estudos recentes feitos na  Índia mostram que o homem também cumpre o papel de hospedeiro do parasita.

Segundo Alho, além da perda e alteração de habitats e da exploração  predatória de recursos, a introdução de espécies exóticas nos ecossistemas  também propiciam a disseminação de doenças.

É o caso do caramujo africano, molusco onívoro e voraz. Introduzido no Brasil  na década de 80, ele se espalhou por 24 dos 26 estados do país. Além de se  reproduzirem em alta velocidade, carregam parasitas causadores de duas doenças —  a meningite eosinofílica e a angiostrongilose abdominal. Os parasitas são vermes  e saem do caramujo pelo muco. Essa baba do molusco contamina verduras e legumes  que, ingeridos pelo homem sem a devida higienização, podem provocar a inflamação  das meninges ou, mais grave ainda, a zoonose abdominal, capaz de perfurar  inclusive o intestino.

Assim como esconde doenças e vetores, a natureza também guarda as respostas  para curas. Segundo Alho, cerca de 80% a 85% dos remédios da indústria  farmacêutica são originários da natureza. Não são apenas substâncias que entram  nesta conta. Várias drogas de laboratórios são sintetizadas a partir de  informações genéticas da natureza. Ele lembra que, ao estudar corais no litoral  brasileiro, cientistas observaram que eles liberam toxinas para repelir  predadores. São toxinas fortes e paralisantes, que podem resultar em anestésicos  mil vezes mais poderosos dos que os atualmente disponíveis no mercado.

— A biodiversidade é uma imensa biblioteca. Só tem acesso quem a consulta.  Quando se perde uma espécie e seu código genético, perde-se uma informação para  sempre — resumo Alho.

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